Autobiografia e a autocrítica de Rita redimensionam o valor dos Mutantes

Sábado, 05/11/2016, às 11:24, por Mauro Ferreira

Toda a mídia tem dado justo destaque à recém-lançada autobiografia de Rita Lee, mas é curioso que (quase) ninguém ressalta que, no livro, Santa Rita de Sampa sapateia na cara dos críticos musicais, em especial dos que chama de "viúvos dos Mutantes". A autocrítica de Rita sobre os discos do trio paulistano é implacável e se dirige especificamente aos cultuados cinco álbuns que a cantora e compositora paulistana gravou no Brasil entre 1968 e 1972 com Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, "ozmano", como ela se refere jocosamente no texto aos irmãos com quem formou em 1966 o grupo que deu identidade ao rock brasileiro quando se juntou à turma da Tropicália e, em especial, ao visionário Gilberto Gil. Os cinco álbuns podem ser seis porque, na prática, o segundo álbum solo de Rita, Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (1972), foi um disco dos Mutantes creditado apenas à cantora.


Rita reconhece a importância que o grupo teve na época, mas avalia os discos como irregulares. E quer saber? Mágoas à parte (provocadas pela abrupta saída da cantora do grupo, assunto ainda incômodo para a artista), Rita tem lá a razão dela. Críticos musicais sempre fizeram culto cego à obra dos Mutantes, mas qualquer disco gravado posteriormente por Rita com Roberto de Carvalho, na luminosa fase que vai de 1979 a 1985, é mais coeso do que qualquer álbum dos Mutantes, com exceção do irregular Bom bom(Som Livre, 1983).


A questão é que, após bons discos à frente do grupo Tutti Frutti (sendo que Fruto proibido, de 1975, é álbum excepcional), Rita fez pop carnavalizante com Roberto de Carvalho. Nunca deixou o rock de lado, mas o que fez com o parceiro de vida e de música foi essencialmente música pop da melhor qualidade. E pop sempre perde na comparação com rock, na visão dos críticos. Até porque o termo pop está associado a popular

Daí que, por mais que tenha sido movida à mágoa, a impiedosa avaliação dos álbuns dos Mutantes na autobiografia da artista não soa assim tão disparatada. Fora daquele contexto tropicalista de renovação, provocação e quebra de fronteiras, os repertórios autorais dos discos dos Mutantes são mesmo irregulares (o primeiro e melhor disco do grupo, Os Mutantes, de 1968, teve contribuições decisivas de Caetano Veloso, Gil e Jorge Ben Jor).


Dos cinco álbuns brasileiros da formação clássica do trio, talvez dê para tirar umas doze músicas autorais que realmente resistem ao tempo. E ainda é preciso levar em conta que boa parte da criatividade dos Mutantes deve ser posta na conta do genial maestro tropicalista Rogério Duprat (1932 – 2006), arranjador de várias gravações do grupo.


Enfim, nada tira o honroso lugar d'Os Mutantes na história da música brasileira e do rock nativo – nem mesmo as resistentes mágoas de Madame Lee – mas a autocrítica de Rita ajudar a clarear a visão sobre a obra de um grupo por vezes incensado simplesmente porque dá status se proclamar admirador da obra dos Mutantes e minimizar a importância do cancioneiro pop popular composto por Rita com Roberto de Carvalho. Nesse sentido, a impiedosa (e, por isso mesmo, excelente) autobiografia de Rita Lee contribui bastante para redimensionar a real importância do grupo paulistano na cena brasileira.


(Crédito da imagem: Rita Lee em foto de Guilherme Samora / Globo Livros)



Categoria:Música

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