Thaís Gulin mostra que ainda transita pelas margens ao gravar DVD no Rio

Do G1 Música, por Mauro Ferreia


No fim de dezembro de 2006, Thaís Gulin lançou sem estardalhaço o primeiro álbum, batizado com o nome da cantora e compositora curitibana. Dez anos depois de Thaís Gulin (Rob Digital, 2006), disco de tom meio marginal, a artista inicia a pós-produção do primeiro registro ao vivo de show, captado em apresentação feita na noite de anteontem, 30 de novembro de 2016, no Espaço Tom Jobim, na cidade, o Rio de Janeiro (RJ), que Gulin escolheu para morar.



Idealizada desde 2013 e enfim viabilizada em coprodução com o Canal Brasil, a gravação ao vivo foi feita cinco anos após a edição do segundo álbum da artista, ôÔÔôôÔôÔ (Slap, 2011), excelente disco projetado para tornar Gulin estrela de primeira grandeza na música brasileira, mas ofuscado na mídia pela notícia de que a cantora era a então nova namorada de Chico Buarque. Como o disco não aconteceu, Gulin rebobinou oito composições do repertório de ôÔÔôôÔôÔ nas 15 músicas do roteiro do show gravado ao vivo, mas a pegada foi outra, mais pesada, efeito da parceria de Arthur Kunz (metade do duo paraense Strobo) com o baterista Alex Fonseca na direção musical do show, visualmente valorizado por belo cenário e por projeções de vídeos em boa parte das músicas.



Geralmente, Gulin se mostra cantora mais segura nas gravações de estúdio do que nas interpretações dos palcos. Isso ficou bem nítido quando ela cantou Se eu soubesse, a música que ganhou de Chico Buarque e que não teve toda a graça amorosa exposta na gravação ao vivo. Mas a apresentação fluiu bem, apesar de eventuais tropeços da cantora, como a troca do sobrenome do baterista (Rocha em vez de Fonseca) na apresentação da banda.



Nessa afiada banda, a propósito, o toque da guitarra de Zé Vito sobressaiu em números de atmosfera mais minimalista como a mencionada canção Se eu soubesse, a inédita autoral My man (Thaís Gulin, 2016) – composta em inglês com inspiração – e Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981). Este sucesso de Roberto Carlos, cantado por Gulin desde os primeiros shows no Rio, inicia em clima minimalista, mas ganha pressão roqueira (e o coro espontâneo do público) à medida que a música avança. Já a proposta de interação com a plateia em Ali, sim, Alice (Tom Zé, 2011) soou dispensável, até porque jamais evidenciou o tom lúdico do tema cedido com exclusividade pelo tropicalista compositor baiano para Gulin para o álbum ôÔÔôôÔôÔ, do qual a cantora rebobinou também o carimbó Água (Kassin, 2006), repetido no bis com resultado mais satisfatório do que o obtido na primeira interpretação desta música de levada irresistível que, ao ser cantada pela primeira vez no show, realçou a semelhança (somente naquele número) do timbre de Gulin com o de Paula Toller.



Quando se afastou do repertório de ôÔÔôôÔôÔ e seguiu adiante, Gulin surpreendeu mais. Incrementada com programações eletrônicas, Baile de favela (Resposta) (Mariana Nolasco e Pedro Pascual, 2016) se afinou com o discurso atual de empoderamento feminino. Já a música feita por Gulin a partir de poema sem título de Paulo Leminski (1944 – 1989), extraído do livro La vie em close (Editora Brasiliense, 1991), conectou a cantora ao tom mais underground do primeiro disco.



Cabe ressaltar que Gulin caminha bem quando transita pelas margens, o que justificou a abordagem de Walk on the wild side (Lou Reed, 1972) e também o mashup que costura Cinema americano (Rodrigo Bittencourt, 2009), hit dos primeiros shows da artista, com Baby got back (Sir Mix-a-Lot, 1992), rap que fez sucesso nos Estados Unidos no início da década de 1990 na gravação do compositor do tema, Sir Mix-a-Lot, nome artístico do MC e produtor norte-americano Anthony Ray. Intitulado Cinema big butts, o inusitado mix foi gravado e lançado em single pela cantora em 2013.



Enfim, dez anos depois do primeiro álbum, Thaís Gulin ainda come pelas beiradas ao gravar ao vivo show que, a julgar pelo cenário, deve render DVD de visual tão interessante quanto as músicas mais inspiradas da artista. (Cotação: * * * 1/2)


Eis o roteiro seguido em 30 de novembro de 2016 por Thaís Gulin no show feito no teatro do Espaço Tom Jobim, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), e gravado ao vivo para edição de DVD:

1. Horas cariocas (Thaís Gulin, 2011)


2. Garoto de aluguel (Taxi boy) (Zé Ramalho, 1979)


3. Quantas bocas (Thaís Gulin, Ana Carolina e Kassin, 2011)


4. Água (Kassin, 2006)


5. Baile de favela (Resposta) (Mariana Nolasco e Pedro Pascual, 2016)


6. Ali, sim, Alice (Tom Zé, 2011)


7. Se eu soubesse (Chico Buarque, 2011)


8. My man (Thaís Gulin, 2016) – Música inédita


9. Cama e mesa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1981)


10. Amor de Carnaval (Pedro Mann e Lucas Santtana, 2016)


11. Música sobre poema sem título de Paulo Leminski (1944 – 1989) do livro La vie em close (1991)


12. Walk on the wild side (Lou Reed, 1972)


13. Revendo amigos (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972)


Bis:
14. Água (Kassin, 2006)


15. ôÔÔôôÔôÔ (Thaís Gulin, 2011)


16. Cinema Big Butts: Cinema americano (Rodrigo Bittencourt, 2009) /   Baby got back (Sir Mix-a-Lot, 1992)



(Créditos das imagens: Thaís Gulin em fotos de divulgação de Mariana Vianna)

Categoria:Música

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